sábado, 20 de agosto de 2016

Religião e Política: podemos mantê-las separadas?

Por David Langness.


Sede as personificações da justiça e da equidade entre toda a criação. (Bahá'u'lláh, The Most Holy Book, p. 87)
... A religião não se deve preocupar com questões políticas. A religião preocupa-se com coisas do espírito, a política com as coisas do mundo. A religião tem de trabalhar com o mundo do pensamento, enquanto o campo da política está no mundo das condições externas. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 132-133)
Inicialmente, quando me tornei Bahá’í - tenho que admitir - debati-me com o princípio Bahá'í de não-envolvimento na política partidária, que facilmente se tornou para mim o novo conceito espiritual mais difícil entender e seguir.

Fui criado sem qualquer religião real e numa época de grande agitação social; quando era jovem comecei a acreditar que a forma de mudar o mundo para melhor incluía mudar a nossa liderança política. Afinal, pensei, se fossemos governados por políticos mais pacíficos e menos preconceituosos, eles poderiam levar-nos a uma nova e mais esclarecida sociedade. E seguidamente, vários líderes - o Presidente Kennedy, o seu irmão Robert, Malcolm X e Martin Luther King, Jr. - todos foram vítimas de balas de assassinos no espaço de meia década.

Após esses acontecimentos trágicos, quando, posteriormente, o meu país elegeu muitos líderes que continuaram as suas guerras, não conseguiram resolver adequadamente o problema do racismo e frustraram os esforços para construir a unidade internacional, comecei a perceber que os políticos só podem fazer o que a população em geral decide e permite que eles façam. Os líderes só podem liderar aqueles que os querem seguir. Qualquer líder que se coloque muito longe à frente das opiniões dos povos corre o risco de ver a sua carreira terminar abruptamente.

Quando estudei os ensinamentos Bahá’ís, descobri que a verdadeira mudança tem que vir de baixo e não pode ser imposta de cima - e a verdadeira mudança, tal como todos os profetas de Deus ensinaram, começa no coração e no espírito humano:
A religião diz respeito a assuntos do coração, do espírito e da moral.

A política ocupa-se com as coisas materiais da vida. Os professores religiosos não devem invadir o domínio da política; eles devem preocupar-se com a educação espiritual do povo; eles devem sempre dar bons conselhos aos homens, tentando servir Deus e a espécie humana; eles devem-se esforçar para despertar a ambição espiritual, e esforçar-se por ampliar a compreensão e o conhecimento da humanidade, por melhorar a moral, e por aumentar o amor pela justiça.

Isto está de acordo com os Ensinamentos de Bahá'u'lláh. No Evangelho também está escrito: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus." ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 158-159)
Estas breves palavras de 'Abdu'l-Bahá resumem claramente os ensinamentos Bahá'ís sobre a separação entre religião e política. Os Bahá’ís acreditam que os dois não se misturam bem:
Sempre que os líderes da gloriosa religião de Deus e os pilares da Sua poderosa Lei intervieram nos assuntos políticos, concebendo esquemas e elaborando planos, isso, inevitavelmente destruiu a unidade dos crentes e dispersou as fileiras dos fiéis; a chama de sedição foi ateada e o fogo de hostilidade consumiu o mundo; o país foi pilhado e saqueado; e as pessoas caíram nas mãos dos medíocres. ('Abdu'l-Bahá, o Tratado sobre a Política, citado pela Casa Universal de Justiça, numa carta a um indivíduo Bahá'í, 18 de Abril de 2001)

A Comunidade Bahá'í é uma organização mundial que procura estabelecer a paz verdadeira e universal na terra. Se um Bahá’í trabalha para um partido político para superar outro, isso é uma negação do próprio espírito da Fé. Assim, a filiação em qualquer partido político, implica necessariamente o repúdio de alguns ou de todos os princípios de paz e unidade proclamados por Bahá'u'lláh. (Carta às Assembleias Espirituais Nacional Africanas, 08 de Fevereiro de 1970, The Universal House of Justice, Messages 1963 to 1986, p. 163)
Portanto, a fim de se tornarem, tal como pede Bahá'u'lláh, "a personificação da justiça e da equidade entre toda a criação", os Bahá’ís abstêm-se de participar na política partidária, aderir aos partidos políticos ou fazer campanha pelos candidatos. Os Bahá’ís são livres para tomar parte na vida cívica através do voto, defendendo causas humanitárias e até mesmo concorrendo e aceitando cargos não-partidários de serviço civil e público - mas não participando em debates, eleições e sistemas políticos divisivos.

Os Bahá’ís não rejeitam a liderança política correcta e honesta, nem se opõem a esses líderes - na verdade, os Bahá’ís aceitam e louvam os governantes justos, são fiéis aos seus governos e cumprem a lei. Em vez de tentar realizar mudanças através das velhas ferramentas do partidarismo e do seu divisionismo inerente, os Bahá’ís concentram os seus esforços no aperfeiçoamento do carácter interior humano, na promoção mundial da justiça social, e na construção de uma ordem administrativa Bahá'í diversificada, global e unificada, apresentando-a ao mundo como um modelo para uma futura sociedade internacional:
Que se abstenham de se associar, seja por palavras ou por actos, com as actividades políticas dos seus respectivos países, com as políticas dos seus governos e os esquemas e programas dos partidos e das facções... Que afirmem a sua firme determinação em manter-se, firmemente e sem reservas, no caminho de Bahá'u'lláh, para evitar os enredos e questiúnculas inseparáveis das actividades do político, e a tornarem-se agentes dignos desse Política Divina que encarna o propósito imutável de Deus para todos os homens... (Shoghi Effendi, Carta aos Bahá’ís dos Estados Unidos e Canadá, 21 de Março de 1932)
Os Bahá’ís trabalham pela unidade da raça humana, e não pela sua desunião:
A nossa esperança é que os líderes religiosos do mundo e os seus governantes se ergam unidos pela reforma desta era e pela reabilitação do seu destino. Que eles, depois de meditar sobre as suas necessidades, consultem em conjunto e, por deliberação inquieta e plena, administrem a um mundo doente e penosamente aflito o remédio que necessita... Queira Deus, que os povos do mundo possam ser levados, como resultado dos altos esforços exercidos pelos seus governantes e pelos sábios e eruditos entre os homens, a reconhecer os seus melhores interesses. Durante quanto tempo vai a humanidade persistir na sua obstinação? Durante quanto tempo continuará a injustiça? Durante quanto tempo reinarão o caos e confusão entre os homens? Durante quanto tempo vai a discórdia agitar a face da sociedade? (Bahá'u'lláh, SEB, CX)
A resposta a estas questões profundas, de acordo com os ensinamentos Bahá’ís, é a unidade.

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Texto original: Religion and Politics—Can We Keep them Apart? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Irão: Casa de Bahá’u’lláh em Teerão em foco na comunicação social


No passado dia 1 de Maio, a Casa de Bahá'u'lláh situada numa rua próxima da Pamenar Street, em Teerão, foi selada, na sequência de uma decisão judicial, tendo sido salientado que qualquer tentativa para reabrir a casa seria alvo de um processo judicial. O edifício é de propriedade do governo e foi renovado em 2013.

Pelas informações recebidas, não está claro o que se conseguiu com o encerramento da casa. De acordo com a comunicação social controlada pelo governo iraniano, os Bahá’ís tinham tentado comprar as propriedades vizinhas "para desenvolver o edifício histórico como um local para reuniões religiosas e devocionais" (ou, mais provavelmente, impedir que um promotor imobiliário pudesse destruir a área). De acordo com esta comunicação social, a negligência, a ignorância e a má gestão do edifício histórico por parte dos funcionários do Ministério do Património Cultural levou-os a pedir aos Bahá’ís que tentassem - sem sucesso - registar a casa como monumento cultural.

A idade e a beleza do edifício não deixam margem para dúvidas, de acordo com estes meios de comunicação, que a recusa de registo do edifício se deveu ao preconceito anti-Bahá’í. Mas a casa não está ligada apenas à comunidade Bahá’í; é parte da história do Irão e pertence a todos os iranianos. Embora a casa seja um local sagrado para os Bahá’ís, estes, para evitar problemas, abstiveram-se de realizar actividades nas proximidades, e até mesmo de caminhar nas redondezas.


Alguns observadores salientam que o registo do edifício como monumento cultural, em particular se for incluído na lista de património mundial da UNESCO, impediria a construção de edifícios modernos na área adjacente. O encerramento judicial impede a manutenção e o processamento do registo do local como património cultural.

O Ministério dos Lugares Culturais e do Artesanato, com responsabilidades na protecção do património e no desenvolvimento do turismo, está a ser responsabilizado por não conseguir registar o edifício (por causa do preconceito anti-Bahá’í) e por trabalhar com Bahá’ís para tentar conseguir o registo! Não se percebe porque é que o assunto surgiu agora na imprensa, pois o encerramento ocorreu em Maio tendo isso sido noticiado de forma limitada nessa ocasião.

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FONTES:
House of Baha’u’llah in Tehran in the news in Iran (Sen’s Daily)
پلمپ بیت مبارک حضرت بهاالله پیشوای دیانت بهایی (Gold News)

ARTIGO RELACIONADO:
Casa de Bahá'u'lláh em Teerão: uma polémica pré-eleitoral no Irão (com várias fotos)

São os actos que nos distinguem...


domingo, 14 de agosto de 2016

Dilúvio e Cataclismo: o que acontece com a subida do nível do Mar?

Por David Langness.


Foi feita menção em certos livros sobre um dilúvio que fez com que tudo o que existia na terra, registos históricos assim como outras coisas, fosse destruído. Além disso, ocorreram muitos cataclismos que eliminaram os vestígios de muitos eventos. (Bahá’u’lláh, SEB, LXXXVII)

As mudanças climáticas antropogénicas não são inevitáveis; a humanidade escolhe as suas relações com o mundo natural. (The Baha’i International Community, Shared Vision and Shared Volition - Choosing Our Global Future, Statement to the Paris Climate Conference, December, 2015)
Todos conhecemos a história de Noé e do dilúvio. Originalmente surgiu na tradição judaico-cristã, certo?

Não. A conhecida história de Noé no Génesis apenas representa uma das muitas versões de uma antiga narrativa.

A maioria das religiões mundiais – e antigas civilizações – apresenta alguma variante do conhecido mito do dilúvio. Provavelmente iniciou-se na antiga região agrícola da Mesopotâmia, naquilo que os historiadores designam como o antigo período Babilónico, vinte séculos antes de Cristo, muito antes da revelação da Torá. Temos pelo menos nove versões do mito do dilúvio que precedem o de Noé; o primeiro é conhecido como o Dilúvio Sumério. A mais conhecida destas histórias – o Épico de Gilgamesh, a mais antiga obra literária da humanidade – data de 2100 a.C. Nessa história, o papel de Noé é desempenhado por um imortal chamado Utnapishtim, que significa “aquele que encontrou a vida”.

Assim, praticamente todas as culturas têm uma história sobre o dilúvio. Estes mitos do dilúvio vieram da Mesopotâmia, da mitologia grega, do Génesis (na Torá), da mitologia nórdica, de fontes Hindus na Índia, do Alcorão, e de muitos povos indígenas como os Maias e os grupos tribais Ojíbuas nas Américas. O que poderia ter inspirado essa história tão conhecida?

As gigantescas inundações que se seguiram ao último período glacial, que terminou há cerca de 10.000 anos, podem ser a fonte destes mitos culturais persistentes e muito difundidos. Durante esse período, o Homo Sapiens migrou do seu lar original em África, e começou a habitar as regiões quentes da Terra. Quando o último período glacial terminou e o mundo começou a aquecer, os glaciares que cobriam grande parte do Hemisfério Norte derreteram e recuaram.

Com a água do degelo dos glaciares formaram-se grandes mares interiores, muito maiores que o Lago Baikal (Rússia) ou os Grandes Lagos (EUA). O nível dos mares subiu rapidamente, inundando vastas áreas anteriormente secas e redesenhando as linhas costeiras. Podemos imaginar como as diversas culturas desenvolveram as suas histórias sobre o dilúvio se pensarmos nas inundações catastróficas criadas pelo degelo dos glaciares.

Os cientistas acreditam que a humanidade está prestes a enfrentar grandes inundações, recuo dos glaciares e aumento do nível dos mares, tudo causado pelo aquecimento da Terra resultante das alterações climáticas. E pensam que isto acontecerá muito mais rapidamente.

Na verdade, um novo estudo realizado por oito cientistas especializados em clima publicado na prestigiada revista Nature descobriu que as elevadas e continuadas emissões de gases de efeito de estufa podem provocar a desintegração das duas maiores camadas de gelo em algumas décadas, lançando água suficiente no oceano para fazer subir o nível dos mares 1 a 2 metros, em 2100. Se isto acontecer, obrigaria a deslocar metade da população mundial, criando um enorme caos e sofrimento, e causado um tremendo prejuízo económico.

Os investigadores também descobriram que o aumento do nível do mar poderia aumentar exponencialmente no próximo século, a um ritmo superior a 30 cm por década. Os cientistas documentaram esses aumentos rápidos num passado geológico distante, quando camadas de gelo muito maiores entraram em colapso; mas a maioria dos cientistas assumia que que seria impossível chegar a cadências tão extremas com as pequenas camadas de gelo que agora existem na Groenlândia e na Antárctida. Essa suposição revelou-se falsa; isso que significa a humanidade enfrentará uma inundação catastrófica de proporções míticas num futuro próximo.

Os cientistas que escreveram o novo relatório basearam as suas conclusões em melhoramentos feitas num modelo computorizado da Antárctida que inclui factores recentemente descobertos que põem em risco a estabilidade da maior camada de gelo do mundo. A nova ferramenta de modelação por computador permite que os cientistas, pela primeira vez, reproduzam os elevados níveis do mar no passado. Agora é possível seguir com precisão os níveis do mar imediatamente após a última Era Glacial, quando estes eram muito mais elevados do que os seus níveis actuais, e usar esses níveis para criar um modelo dos efeitos do derretimento das calotas polares num futuro próximo.

Como pode a humanidade evitar os piores efeitos desta crise provocada pelo ser humano?

Os Bahá’ís acreditam na concordância entre ciência e religião; como consequência, os ensinamentos Bahá’ís apresentam soluções viáveis para estes tremendos problemas globais:

A religião e a ciência apresentam perspectivas complementares na formação da vida colectiva e individual. Ambas influenciam as escolhas e as prioridades, e ambas são necessárias para organizar de forma justa e sustentável os assuntos da humanidade.
Abordar as alterações climáticas globais é um trabalho que, em última análise, gira em torno do propósito de vidas humanas bem vividas. Isto é um objectivo acalentado por povos, culturas e religiões em todo o mundo. Nele podemos encontrar um poderoso ponto de unidade que pode apoiar o trabalho que temos pela frente. (The Baha’i International Community Statement to the Lima, Peru Climate Change Conference, 2008)
O que significa a frase “vidas humanas bem vividas”? No próximo texto vamos ver a definição Bahá’í para este termo e explorar algumas das suas implicações mais profundas para a resolução de problemas para a crise da subida dos níveis dos mares.

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Texto original: Deluge and Cataclysm: What Happens when the Oceans Rise? (www.bahaiteachings.org)
Artigo anterior: O Materialismo e o próximo Dilúvio

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

30 jovens Bahá’ís detidos no Iémen


Segundo a agência Reuters, agentes armados do Gabinete Nacional de Segurança do Iémen, um organismo dos Serviços de Informação controlados pelos Houthis invadiram uma convenção de jovens Bahá’ís, na passada quarta-feira (ou quinta-feira, segundo outras fontes) e prenderam 30 jovens de ambos os sexos.

Fontes não confirmadas da comunidade Bahá’í afirmam o número de jovens detidos atinge os 50.

Os Houthis são um grupo Xiita Zaidi que se supõe ser apoiado pelo Irão.

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FONTES:
Air strikes near Yemen's capital wound six: residents (Reuters)
30 Bahai youth arrested in Yemen (Sen's Daily)

terça-feira, 9 de agosto de 2016

5 coisas que gostava de ter sabido antes da morte da minha Mãe

Por Kathy Roman.



Há quatro dias atrás, a minha mãe faleceu de forma repentina e inesperada. Há cinco coisas que eu gostava de ter sabido antes de ela ter morrido:

1. Tentar viver sem mágoas


Senti, e ainda sinto, uma dor profunda após a morte da minha mãe - o que me surpreende. Afinal, eu e ela conversámos, muitas vezes ao longo dos anos, sobre a ida dela para o outro mundo. Ambas pensávamos que estávamos preparadas. Como Bahá’í, eu não temia a morte para mim ou para ela:
Fiz a morte de um mensageiro de alegria para ti. Porque te lamentas? Fiz a luz derramar sobre ti o seu esplendor. Porque que tu ocultas disso? (Bahá'u'lláh, As Palavras Ocultas, do Árabe, #32)
Então, porque é que eu não consegui libertá-la para Deus com um coração radiante, como sempre esperei? Quando reflecti sobre a fonte da minha dor, percebi que esta não era a minha mãe. Estou completamente confiante que ela encontrou a felicidade ilimitada num lugar de paz e amor sem dimensão. A minha dificuldade em continuar agora vem dos meus remorsos por não lhe ter dado mais do meu tempo, da minha atenção e do meu amor. Embora me digam que isso é normal, ainda dói:
Diz, ó Meu povo! Mostrar grande respeito pelos vossos pais e prestai-lhes homenagem. Isso fará com que bênçãos desçam sobre vós das nuvens das dádivas do vosso Senhor, o Excelso, o Grande. (Bahá'u'lláh, excerto de uma epístola a um crente individual)

2. Perdoe, mesmo que apenas para si próprio


O meu coração tinha recordações, algumas inconscientes, de mágoas do passado. Quando tive os meus próprios filhos, essas memórias surgiram novamente. Falei com a minha mãe sobre isso e pensei que tinha deixado passar a maior parte. Tornámo-nos mais próximas e à medida que ela envelhecia, visitei-a todos os dias e tentei tratar bem dela. Apesar de me esforçar por perdoar, ainda lhe negava uma pequena parte do meu coração que sentia que ela não merecia. O que eu fiz foi magoar-me a mim própria, pois impedi que o amor dentro de mim fluísse livremente:
Temos que nos lembrar, quando perdoamos não estamos a fazer isso apenas pela outra pessoa; nós estamos fazendo isso para nosso próprio bem. Quando insistimos em não perdoar e vivemos com rancor nos nossos corações, tudo o que estamos a fazer é construindo muros de separação. (Joel Osteen)

O perdão é a forma final do amor. (Reinhold Niebuhr)

3. Libertar-se de ressentimentos


Sem nos livrarmos de ressentimentos profundamente enraizados, não conseguiremos encontrar plenamente o nosso caminho para o perdão. A verdade é que todos nós cometemos erros e fazemos o melhor que podemos, pois em qualquer nível de desenvolvimento espiritual encontramo-nos nessa situação. Ninguém é perfeito, e a verdade, na maioria das vezes, é que a forma como as pessoas nos tratam tem muito mais ver com aquilo que elas são, do que aquilo que nós somos. O ressentimento também ocupa um espaço valioso nos nossos corações; um espaço que poderia ser preenchido com coisas mais felizes:
O coração é como um jardim. Ele pode cultivar compaixão ou medo, ressentimento ou amor. Que sementes vais ali plantar? (Buddha Gautama)

4. Fale a sua verdade


Agora que a minha mãe partiu, já não terei a oportunidade de lhe dizer o que estava escondido no meu coração. Acredito que poderia ter partilhado amorosamente os meus sentimentos e ressentimentos mais profundos, e que ela teria tentado compreender. Sei que um dia teremos esta oportunidade, mas eu gostaria que isso tivesse acontecido neste mundo. Por não querer agitar as águas, provocar confrontos ou dor, recusei a oportunidade de nos tornarmos ainda mais próximas. A honestidade que é bondosa e amorosa não tem de ser dolorosa, mas pode tapar as lacunas criadas por anos de mal-entendidos:
Embelezai as vossas línguas, ó povo, com a veracidade, e adornai as vossas almas com o ornamento da honestidade. (Bahá'u'lláh, SEB, CXXXVI)

A veracidade é a base de todas as virtudes do mundo humano. Sem a veracidade, o progresso e o sucesso em todos os mundos de Deus são impossíveis para uma alma. ('Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 4, p. 183)

5. Amar agora com todo o coração


Ame agora, com todo o teu coração, sem pensar se é merecido ou que valor isso tem. Faça isso para o seu próprio bem, porque pode vir o dia em que você não poderá mais fazê-lo.

No momento em que minha mãe faleceu, todas as ofensas, grandes e pequenas, desapareceram completamente. Isto foi uma libertação maravilhosa, mas ao mesmo tempo um remorso doloroso. Perguntava-me: porque é que não tinha feito isso mais cedo? Agora eu tinha o coração completamente aberto e pronto para amar com todo o coração, mas ela tinha partido. Ao retrair-me e ao não perdoar completamente com todo o meu ser, eu tinha sufocado o amor dentro de mim.
Se um de vocês tiver sido ferido no coração pelas palavras ou acções de outro, durante o ano passado, perdoai-o agora; que, na pureza de coração e de perdão amoroso, possais celebrar em alegria, e erguer-vos, renovados no espírito. ('Abdu'l-Bahá, Vignettes from the Life of Abdu’l-Baha, p. 49)
Assim, esta noite, reflicto em lágrimas. Agora sou eu quem está a pedir perdão; lamentando todo o momento em que não fui generosa com todo o meu coração. Com grande misericórdia de Deus, sou lembrada do Seu perdão infalível. A minha mente inunda-se com pensamentos sobre as muitas vezes que mostrei amor de todo o coração à minha mãe, e esses pensamentos confortam-me.

Então decidi que não voltará a haver tempo perdido com ressentimentos ou julgamentos. De agora em diante vou tentar que o meu amor seja incondicional para os outros, independentemente de como sou tratada. O amor puro é para dar sem medida ou merecimento. É assim que Deus nos ama.

Ao concluir este texto uma grande calma apoderou-se de minha alma. Sei que minha mãe ouviu o que está no meu coração. A partir deste momento só haverá amor e alegria entre nós, até nos reunirmos mais uma vez.
Para lá das ideias de certo e errado, existe um campo. Vou encontrar-te lá. Quando a alma se deita sobre aquela relva, o mundo fica cheio demais para que falemos dele. (Rumi)

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Texto original: 5 Things I Wish I’d Known before My Mother Died (www.bahaiteachings.org)

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Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

sábado, 6 de agosto de 2016

O Materialismo e o próximo Dilúvio

Por David Langness.


O mar do materialismo está em maré alta e todas as nações do mundo estão submersas. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 138)
No sul do planeta, lá na Antárctida onde vivem os pinguins, o gelo está a derreter. Rapidamente.

Na Gronelândia, no norte do planeta, o degelo ainda é mais rápido.

Se o gelo da Antárctida derreter, juntamente com o da Gronelândia, isso irá inundar o mundo, submergindo a maioria das grandes cidades costeiras do mundo.

Porquê? Bem, o gelo é tremendamente espesso na Antárctida - mais de um quilómetro de profundidade na maioria dos lugares. Cerca de setenta por cento - 70% - de água doce do mundo está na massa de gelo da Antárctida.

As coisas funcionam do seguinte modo: a Terra tem duas "camadas de gelo" – dois enormes glaciares de dimensão continental que cobrem grandes massas terrestres. A menor camada de gelo do mundo cobre a maior parte da Gronelândia (1,7 milhões de quilómetros quadrados); a maior camada de gelo cobre a Antárctica (14 milhões de quilómetros quadrados - o tamanho conjunto dos Estados Unidos e do México). Estas duas camadas possuem a maioria (mais de 95%) - da água doce do mundo, congelada naquele gelo azul profundo.

Variação da Massa de Gelo da Antárctica desde 2002
Se tudo derretesse - Antárctica e a Gronelândia – o nível do mar subiria quase 70 metros.

Isto seria uma verdadeira catástrofe global. Iria desalojar grande parte da população mundial, pois cerca de metade dos seres humanos vivem actualmente a uma distância inferior ou igual a 60 quilómetros do mar. Todas as zonas de baixa altitude, áreas costeiras ou próximas dos oceanos seriam inundadas. Três quartos das principais cidades do mundo situam-se junto a um oceano. Então, adeus Nova Iorque, Sydney, Los Angeles, Hong Kong, Xangai, Londres, Calcutá, Banguecoque, Tóquio, Miami, etc, etc. Quer ver como seria o mapa-mundo do pós-gelo? A National Geographic tem um mapa interactivo.

Porque é que eu estou a levantar este tema assustador? Porque um novo estudo muito importante, foi lançado em Fevereiro de 2016 pela Academia Nacional de Ciências dos EUA, concluiu que o nível do mar poderia subir 1 a 2 metros durante este século, fazendo desaparecer cidades costeiras e forçando a deslocação de milhões de refugiados para o interior.

Basicamente, este novo estudo diz que anteriormente subestimámos a velocidade, os efeitos e o impacto das alterações climáticas que provocam a subida do nível do mar. Em vez de levarem séculos a acontecer, o colapso das camadas de gelo do mundo poderá acontecer dentro de algumas décadas.

Os cientistas que realizaram o estudo constataram que uma acentuada subida do nível do mar e inundações vão certamente ocorrer, independentemente do que possa acontecer. Mesmo que reduzíssemos drasticamente a poluição da nossa atmosfera queimando menos combustíveis fósseis, o calor já retido pelos nossos oceanos e atmosfera fará com que o nível do mar aumente e as inundações costeiras se tornem muito mais frequentes. No entanto, se as nações do mundo seguirem os Acordos Internacionais de Paris sobre o clima, e mantiverem o aumento da temperatura global abaixo de 2 graus centígrados, o nível do mar poderia ainda subir entre 20 a 60 centímetros até ao ano 2100. Mas se não formos capazes de cumprir os Acordos de Paris, afirma o estudo, o nível do mar vai subir entre 1 a 3 metros. Isso tornará inabitáveis muitas cidades costeiras. Quem estiver a pensar em comprar uma casa de praia, desista.

O que vai fazer a diferença entre um aumento do nível do mar problemático, mas relativamente seguro de 60 cm e um aumento catastrófico de 3 metros? Numa palavra: consumo.

Esta ampla diferença nos níveis de potenciais subidas do nível do mar que nossos filhos e netos herdarão, dependerá do nosso consumo de combustíveis fósseis, alimentos e bens materiais. Se continuarmos a consumir estas coisas da mesma forma que fizemos no passado, vamos inundar as zonas costeiras do planeta. Se reduzirmos o nosso consumo, através da conversão para fontes de energia renováveis, desperdiçando menos alimentos e usando dietas mais moderadas à base de plantas, e se encontrarmos maneiras de controlar os nossos hábitos materialistas e irresponsáveis enquanto consumidores, ainda temos uma possibilidade de evitar a submersão das grandes cidades do mundo.

Talvez ‘Abdu'l-Bahá tivesse estas condições futuras em mente quando disse: " O mar do materialismo está em maré alta e todas as nações do mundo estão submersas."

Os ensinamentos Bahá’ís, e todas as grandes religiões anteriores, há muito tempo que apelam ao fim desse materialismo:
Todos os Profetas vieram para promover dádivas divinas, para fundar a civilização espiritual e ensinar os princípios de moralidade. Portanto, devemos esforçar-nos com todas as nossas forças para que as influências espirituais possam alcançar a vitória, pois as forças materiais têm atacado a humanidade. O mundo da humanidade está submerso num mar de materialismo. Os raios do Sol da Realidade apenas se vêem vaga e obscuramente através de óculos opacos. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 12)
Assim, neste curta série de ensaios, vamos explorar o que o materialismo tem a ver com a subida do nível dos mares; e como podemos impedir que ambos nos afoguem.

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Texto original: Materialism and the Coming Flood (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 30 de julho de 2016

Um Mundo aberto significa Migração em Massa?

Por David Langness.


Será que uma economia aberta e global implica migrações massivas e descontroladas de populações?

Por enquanto parece que sim, não é verdade?

O recente referendo do Brexit no Reino Unido focou-se muito nesta questão. Quando o Reino Unido aderiu à UE, aceitou a livre circulação de cidadãos europeus através das suas fronteiras e abdicou de controlo nacional sobre a imigração europeia. Como consequência de ser membro da UE e de ter relaxado as suas leis de imigração para outros países não europeus - como a Índia e o Paquistão - a população estrangeira nascida no Reino Unido cresceu tremendamente em duas décadas, de 3,8 milhões para 8,3 milhões de pessoas.

Isto foi deixando os Britânicos cada vez mais nervosos. Inicialmente o Reino Unido recebeu com agrado os migrantes porque a sua taxa de natalidade estava abaixo dos níveis de reposição e havia falta de mão-de-obra. Mas em 2008 deu-se a crise financeira e a criação de emprego praticamente acabou. E assim, de repente, os imigrantes e os britânicos competiam por trabalho - e muitos imigrantes aceitavam ordenados mais baixos. A taxa de desemprego subiu. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) do Reino Unido começou a perder muito dinheiro e outros programas da Segurança Social deram sinais de tensão. E da mesma forma que já tinha acontecido no passado, noutros lugares, começou uma reacção anti-imigrante.

Os políticos do Reino Unido viram a reacção e agarraram-na. Culparam a própria UE e os imigrantes em particular. Quando rebentou a guerra na Síria e as guerras americanas (ou por proxies) no Afeganistão e Iraque se intensificaram, milhões de pessoas fugiram para a Europa. O grupo Estado Islâmico formou-se, expandiu-se e atacou. E apesar da Alemanha e da Suécia terem concordado em aceitar a maior parte dos refugiados que estas guerras produziam, e o Reino Unido até hoje só ter recebido 4300 refugiados sírios, as forças do Brexit usaram imagens assustadoras de hordas de refugiados na sua campanha anti-UE. Foi essa campanha de medo que venceu.

Refugiados chegam à fronteira da Alemanha
Mas esses receios tinham alguma razão de ser. As Nações Unidas calcularam recentemente que 65 milhões de pessoas são hoje refugiados ou migrantes involuntários, um número nunca visto. Guerras e conflitos regionais, fomes generalizadas, genocídios e limpezas étnicas, culturas de gangues criminosos e impossibilidade de trabalhar - tudo isto contribui para uma migração em massa sem precedentes que testemunhámos num passado recente. Este enorme número de pessoas que fogem dos seus países coloca ao mundo uma questão difícil: Um mundo aberto significa migração em massa?

Praticamente todas as pessoas de todos os quadrantes políticos - representantes eleitos, estrategas políticos, economistas, planeadores, futuristas, especialistas de direitos humanos e especialistas de política internacional - concordam que um mundo aberto funciona melhor que um mundo fechado. Maior vigilância nas fronteiras, aumento de tarifas comerciais, militarização de zonas fronteiriças, restrições ao movimento de pessoas, bens, serviços e capitais - tudo contribui para uma economia global mais pobre, mais lenta, e altamente disfuncional. Quando o comércio, o capital e as pessoas se podem deslocar livremente no planeta, então o mundo funciona melhor; isto tem sido amplamente demonstrado em todo o mundo.

Esta situação tem levado os observadores e comentadores sensatos a uma conclusão inevitável: o mundo tem que encontrar uma forma de criar um sistema de governação global, que tenha o poder de regular e controlar o fluxo de refugiados e migrantes - e, primeiro que tudo, acabar com as crises e as guerras que causam estas devastadoras migrações forçadas.

Focando-se simultaneamente nos sintomas e na cura, uma autoridade global com poderes executivos poderia imediatamente cortar o fluxo de bens, dinheiro e recursos às nações beligerantes, forçando a cessação das hostilidades e das guerras civis. Poderia consolidar a aplicação da lei internacional ao realizar processos de negociação e consultas para resolver os diferendos. Poderia resolver disputas de longa data entre nações em conflito e eliminar totalmente a horrível praga da guerra. Poderia regular e racionalizar o controlo das migrações dos povos do mundo, proteger os direitos humanos dos refugiados assim como os direitos dos que se encontram em países de acolhimento. Poderia, se quiséssemos, construir o - há muito desejado - futuro global unificado da humanidade com o qual que poetas e profetas sonharam desde o início dos tempos:
Unificação da humanidade inteira é a marca distintiva da etapa que a sociedade humana actualmente se aproxima. A unidade da família, da tribo, da cidade-estado e da nação foram sucessivamente tentadas e completamente conseguidas. A unidade do mundo é o objectivo para o qual a humanidade aflita se encaminha. A construção de nações terminou. A anarquia inerente à soberania do Estado está a dirigir-se em direcção a um clímax. Um mundo em amadurecimento deve abandonar esse fetiche, reconhecer a unidade e a integridade das relações humanas e estabelecer, de uma vez por todas, o mecanismo que melhor possa concretizar este princípio fundamental da sua vida...

As rivalidades nacionais, os ódios e as intrigas cessarão e a animosidade e o preconceito raciais serão substituídos pela amizade, compreensão e cooperação raciais. As causas de conflitos religiosos serão eliminados permanentemente, barreiras e restrições económicas serão completamente abolidas, e a desmesurada diferença entre as classes será obliterada. A destituição por um lado, e excessiva acumulação de bens por outro, irá desaparecer. A enorme energia que se gasta e desperdiça na guerra, seja económica ou política, será consagrada a objectivos, como o alargamento do alcance das invenções humanas e do desenvolvimento técnico, ao aumento da produtividade da humanidade, ao extermínio da doença, à extensão de investigação científica, à melhoria do nível de saúde física, ao aperfeiçoamento e refinamento do cérebro humano, à exploração dos recursos insuspeitos e não utilizados do planeta, ao prolongamento da vida humana e à promoção de qualquer outro meio que estimule a vida intelectual, moral e espiritual de toda a raça humana. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, p. 203)

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Texto original: Does an Open World Mean Mass Migration? (www.bahaiteachings.org)

Artigo Anterior: Ser Global, ser Cidadão do Mundo

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 23 de julho de 2016

Ser global, ser cidadão do mundo

Por David Langness.


Ó povos e raças da terra que estais em confronto! Voltai as vossas faces para a unidade e deixai o esplendor da sua luz brilhar sobre vós. Uni-vos e por amor a Deus decidi-vos a extirpar qualquer coisa que seja fonte de confronto entre vós. Então, o esplendor do grande Luminar do mundo envolverá toda a terra, e os seus habitantes tornar-se-ão cidadãos de uma só cidade e os ocupantes de um mesmo trono. (Bahá’u’lláh, SEB, CXI)
Aqui está a questão: o leitor considera-se cidadão do seu país ou cidadão do mundo?

Recentemente, fiz uma palestra em Reno, no Nevada, por ocasião de um feriado Bahá'í. Antes dessa palestra, tinha estado a pensar sobre o conceito de cidadania e escrevi uma série de textos para o site www.bahaiteachings.org; por isso, perguntei às pessoas presentes se se consideravam primeiramente como cidadãos americanos ou cidadãos do mundo. Coloquei a questão nestes termos: enquanto cidadãos, você tem uma identidade nacional ou global?

Há alguns meses atrás, soube que a BBC tinha colocado esta mesma questão a pessoas de vários países. Contrataram a empresa de sondagens GlobeScan para colocar a questão (“Considero-me mais um cidadão global do que um cidadão do meu país - concorda ou discorda?”) a 20.000 pessoas em 18 nações; o resultado dessa sondagem internacional chocou muitas pessoas, incluindo eu próprio. Pela primeira vez na história humana, uma maioria (51%) das pessoas diziam ver-se mais como cidadãos globais do que como cidadãos nacionais.

Os analistas salientaram que em toda a história humana isto nunca tinha acontecido.

A resposta da audiência em Reno também me surpreendeu; mais de 90% das pessoas presentes identificaram-se primeiramente como cidadãos globais; quase 10% identificava-se primeiramente como cidadãos americanos. Claro que isto não era uma sondagem científica – esta resposta tipo “We are the World” (Nós somos o Mundo!) estava condicionada pelo facto da maioria dos presentes serem Bahá’ís, que tipicamente se vêem como cidadãos do mundo e gotas de oceano humano:
Que o homem não se glorifique por amar o seu país; pelo contrário, que se glorifique por amar a sua espécie. Sobre isto, revelámos anteriormente aquilo que são os meios de reconstrução do mundo e da unidade das nações. Bem-aventurados os que atingem isso. Bem-aventurados os que agem desta forma. (Bahá’u’lláh, Tablets of Baha’u’llah, pp. 127-128)
Assim, de acordo com esta grande sondagem da BBC sobre o assunto, parece que o mundo começou a mover-se no sentido dos ensinamentos de Bahá'u'lláh: as pessoas em todo o planeta identificam-se cada vez mais como cidadãos globais. É difícil imaginar uma mudança de consciência tão fundamental e notável. Em 2002, a mesma sondagem mostrou que apenas 42% da população mundial se considerava cidadã do mundo.

É claro que um valor médio não descreve toda a complexidade da história; esta mudança global não ocorreu de forma igual, e simultaneamente em todos os locais. Se olharmos com cuidado para a sondagem, vemos que a tendência da cidadania mundial mostra-se particularmente forte em países em desenvolvimento, “incluindo a Nigéria (73%; subida de 13 pontos), China (71%, subida de 14 pontos), Peru (70%, subida de 27 pontos), e Índia (67%, subida de 13 pontos)… No total, 56 porcento das pessoas nas economias emergentes vêem-se como cidadãos globais em vez de cidadãos nacionais”

Nas nações mais desenvolvidas e industrializadas, as percentagens da sondagem apresentam valores mais baixos: "Na Alemanha, por exemplo, apenas 30% dos entrevistados se vêem como cidadãos globais" No Reino Unido, 47% da população identificou-se primeiramente como cidadãos globais, e 50% identificou-se primeiramente como cidadãos do Reino Unido. Curiosamente, esses resultados da sondagem são parecidos com os resultados finais do Brexit, o referendo que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia.

Se analisarmos a demografia do referendo do Brexit, podemos ver essa tendência para a cidadania global em termos ainda mais marcantes: cerca de 75% dos jovens (idades entre 18 a 24) votaram pela permanência na UE; por outro lado, 61% dos eleitores mais velhos (com idade superior a 65) votaram pela saída da União Europeia. Claramente, a geração mais jovem não vê o internacionalismo, a cidadania global ou o aumento da imigração como uma ameaça, mas antes, como uma oportunidade. Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í, descreveu o aparecimento de uma consciência global de cidadania mundial desta forma:
O amor à pátria, incutido e acentuado pelos ensinamentos do Islão, como “um elemento da Fé de Deus”, não é condenado nem depreciado por essa declaração, esse toque de clarim, de Bahá'u'lláh. Não se deve – de facto, não se pode – interpretar as Suas palavras como sendo um repúdio, ou vê-las como uma censura pronunciada contra um patriotismo são e inteligente; também não visa a minar a lealdade de um indivíduo ao seu país, nem está em conflito com as legítimas aspirações, direitos e deveres de qualquer estado ou nação específicas. Tudo o que implica e proclama é a insuficiência do patriotismo face às mudanças fundamentais efectuadas na vida económica da sociedade e na interdependência das nações, e como consequência da contracção do mundo, através da revolução dos meios de transporte e comunicação – condições que não existiam nem podiam existir nos dias de Jesus Cristo ou de Maomé. A Sua declaração exige uma lealdade mais ampla, que não deve estar em conflito – e de facto não está – com lealdades menores. Incute um amor que, dado o seu âmbito, deve incluir, e não excluir, o amor à pátria. E estabelece, através dessa lealdade que inspira, e desse amor que infunde, o único alicerce sobre o qual o conceito de cidadão do mundo pode desenvolver-se, e a estrutura da unificação mundial pode basear-se. No entanto, insiste na subordinação de considerações nacionais e interesses particulares aos direitos imperativos e supremos da humanidade como um todo, uma vez que, num mundo de nações e povos interdependentes, a vantagem da parte é melhor conseguida com a vantagem do todo. (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, p. 122)

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Texto original: Going Global: Becoming Citizens of One City (www.bahaiteachings.org)

Artigo anterior: Globalização e Nova Ordem Mundial
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Trailer: A Previsão de Miller


Aos 32 anos, Mark Miller é um veterano da Guerra Civil Americana, perturbado pela experiência da guerra e incomodado pela conhecida previsão do seu tio-avô William Miller, de que o mundo iria acabar em 1844. Após a guerra viaja pelo Médio Oriente, trabalhando para diversas empresas, procurando paz e serenidade. O destino leva-o a encontrar a solução de um mistério que perturbava a sua família e detinha a atenção de estudiosos há muitos séculos.

A Previsão de Miller é um trabalho de ficção. No entanto, o Reverendo Miller existiu e previu o regresso de Cristo em 1844. Anos mais tarde, na Pérsia, os seguidores de Bahá’u’lláh eram perseguidos porque acreditavam que o espírito de Cristo tinha regressado ao mundo.

Legendado em Português.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Mais um Cemitério Bahá’í destruído no Irão



De acordo com a página "BahaiNews", vários agentes da autoridade na província do Curdistão destruíram o cemitério Bahá’í – conhecido como Golestan Javeed (“O Eterno Jardim de Rosas”) – tendo destruído edifícios, cortado mais de 300 árvores e confiscado bens pessoais que se encontravam na morgue.

Segundo as informações recolhidas, os agentes da autoridade terão intimado um cidadão Bahá’í, Sr. Khaleel Eghdamiyan, a comparecer no Tribunal Judicial do Curdistão num prazo de cindo dias. O Sr. Eghdamiyan dirigiu-se ao departamento agrícola deste tribunal e percebeu que "todos os edifícios e a área do cemitério seriam arrasados, e as mais de 300 árvores seriam cortadas e arrancadas."

O cemitério, cuja construção tinha sido totalmente financiada pelos Bahá’ís de Qorveh, tinha mais de 30 sepulturas de mártires Bahá’ís executados pela República Islâmica. Acabou por ser destruído às 5H00 da manhã do dia 14 de Julho.

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FONTE: Security Forces Destroy Baha’i Cemetery in Ghorveh, Kurdistan (Iran Press Watch)

sábado, 16 de julho de 2016

Globalização e Nova Ordem Mundial

Por David Langness.

O desejo de paz pela humanidade apenas se pode realizar com a criação de um governo mundial. Com todo o meu coração, acredito que o actual sistema mundial de nações soberanas apenas pode levar à barbaridade, à guerra e à desumanidade. (Albert Eisntein)

Deus permita que os povos do mundo sejam graciosamente ajudados a preservar a luz dos seus conselhos amorosos no globo da sabedoria. Nutrimos a esperança que todos sejam adornados com o traje da verdadeira sabedoria, a base do governo do mundo. (Baha’u’llah, Tablets of Baha’u’llah, p. 166)

Estamos no limiar de uma era cujas convulsões proclamam simultaneamente os estertores de morte da velha ordem e as dores de parto da nova ordem. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, p. 169)
A Fé Bahá’í foca-se essencialmente no conceito de unidade mundial. Bahá’u’lláh revelou esse princípio fundamental em meados do século XIX, muito antes de o mundo ter tido qualquer visão do planeta como uma única entidade. Hoje, porém, as forças cada vez mais globais da economia e das migrações fizeram da unidade mundial um conceito polarizador:
A nova ordem mundial que está em construção deve focar-se na criação da democracia, paz e prosperidade mundiais, para todos. (Nelson Mandela)

O caminho dos Rockefellers e dos seus aliados é criar um governo mundial combinando o supercapitalismo e o comunismo sob o mesmo tecto, tudo sob o seu controlo. Estou a dizer que isto é uma conspiração? Sim, estou. Acredito que existe uma conspiração, de âmbito mundial, planeada há muitas gerações, com objectivos incrivelmente malignos. (Larry P. MacDonald , antigo membro da Câmara dos Representantes dos EUA)
Pode-se perceber pelo tom da última citação que a expressão “nova ordem mundial” se tornou sinónimo de conspiração mundial para algumas pessoas. Quando encontramos expressões como “nova ordem mundial” ou “governo mundial” num livro ou numa página da internet, por vezes refere-se a uma visão de conspiração do “fim dos tempos”, de um estado totalitário mundial controlado por uma elite secreta, perversa e poderosa que pode dominar o mundo a qualquer momento – e, se calhar, “eles” até já estão no poder. Há pessoas que acreditam nestas teorias da conspiração; e até tentam “demonstrar” as suas ideias de “nova ordem mundial” relacionando-as com as forças reais da globalização que estão agora em acção no mundo.

Na perspectiva Bahá’í, a expressão “nova ordem mundial” tem um significado totalmente diferente. Em vez de significar tirania e autoritarismo, significa, num contexto Bahá’í, liberdade – estar livre da fome, da pobreza, da guerra e da opressão. Nos ensinamentos Bahá’ís, um nova ordem mundial refere-se à próxima fase inevitável e evolutiva na governação do mundo – uma verdadeira democracia mundial.
O equilíbrio do mundo for perturbado pela influência vibrante desta grandiosa, desta nova Ordem Mundial. (Baha’u’llah, Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, p. 136)

Aproxima-se o dia em que teremos recolhido o mundo e tudo o que nele existe, e colocaremos uma nova ordem no seu lugar. (Idem, p 313)

Esta Nova Ordem Mundial, cuja promessa está consagrada na Revelação de Bahá'u'lláh, cujos princípios fundamentais foram enunciados nas escrituras do Centro do Seu Convénio, implica nada menos do que a unificação completa de toda a raça humana. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, p. 161)
Há poucas pessoas que ainda negam a marcha imparável das forças da globalização. Caracterizada pelo movimento, a globalização movimenta ideias, produtos, fundos, conhecimento e pessoas por todo o planeta de uma forma mais rápida e eficiente do que nunca. As nações tornaram-se completamente interdependentes. As economias interligaram-se. O comércio aumentou muito. As fronteiras e as identidades nacionais tornaram-se cada vez menos importantes. A nossa sociedade internacional recém-globalizada criou uma teia complexa de forças e factores que unem conceitos, culturas, mercados, crenças, práticas e pessoas, aproximando-as cada vez mais umas das outras. A unificação completa de toda a raça humana, como se pode ver agora, aproxima-se rapidamente.

Mas nem todas as forças da globalização são todas positivas. Muitos dizem que elas tendem a privilegiar os interesses corporativos em detrimento dos interesses das classes trabalhadoras, pobres e indígenas; que promovem a perda de postos de trabalho, permitindo que as empresas se desloquem para países de baixo custo; que prejudicam o meio ambiente global, dando às empresas multinacionais uma autonomia ilimitada para poluir em países sem leis ambientais; e que aumentam o movimento de migrantes e refugiados do Oriente e do Sul globais para o Norte e Ocidente globais. Por estas e outras razões, a globalização assusta muitas pessoas, e começou a criar uma reacção etnocentrista e xenófoba em grande parte do mundo desenvolvido. A saída da Grã-Bretanha da União Europeia é apenas um exemplo dessa reacção que vai, sem dúvida, agravar e aumentar os problemas, ou dar ao mundo uma lição sobre os perigos de resistir à unificação.


Os Bahá’ís acreditam que só existe uma única coisa que pode controlar, aproveitar e direccionar as forças incontroláveis da globalização: uma nova ordem mundial. Esse sistema de unidade espiritual e governação global, democrática nas suas origens e de âmbito mundial, constitui a "missão suprema" e derradeira da Fé Bahá'í:
A Revelação de Bahá'u'lláh, cuja missão suprema não é senão a realização desta unidade orgânica e espiritual de todo o corpo das nações, deve, se queremos ser fiéis às suas implicações, ser considerada como sinalizando através do seu advento a idade adulta de toda a raça humana. Ela deve ser vista não apenas como mais uma revitalização espiritual nos destinos em constante mudança da humanidade, não apenas como mais uma etapa numa sequência de Revelações progressivas, nem mesmo como o culminar de uma série de ciclos proféticos recorrentes, mas sim como marcando a última e mais elevada fase na fantástica evolução da vida colectiva do homem neste planeta. O aparecimento de uma comunidade mundial, a consciência da cidadania mundial, a fundação de uma civilização e cultura mundial... deve, pela sua própria natureza, ser considerada, no que toca a esta vida planetária, como o mais longínquo limite na organização da sociedade humana, embora o homem, enquanto indivíduo, deva, como resultado dessa consumação, continuar indefinidamente a progredir e desenvolver-se. (Idem, p.163)

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Texto original: Globalization: Welcome to the New World Order (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.