sábado, 24 de setembro de 2016

6 coisas que aprendi na prisão

Por David Langness.


“Diz-se que ninguém conhece verdadeiramente uma nação até que tenha estado dentro das suas prisões. Uma nação não deve ser julgada pela forma como trata seus cidadãos mais elevados, mas como trata os mais rebaixados.” - Nelson Mandela
Você já esteve na prisão?

Na verdade, talvez eu deva reformular a pergunta usando outra palavra: você já esteve numa prisão? Se não esteve, eu recomendo. Não quero dizer que deva ser preso; quero dizer, visitar uma prisão, ou um prisioneiro, para ver como a sua sociedade trata as pessoas encarceradas.

Eu próprio tive uma experiência incrível numa prisão, quando um amigo meu que ensinava Inglês numa prisão dos EUA, me pediu para o substituir durante um semestre. Tenho a certeza que os meus alunos - uma dúzia de criminosos - me ensinaram muito mais do que eu ensinei a eles.

Aqui está a versão abreviada das seis grandes lições que aprendi:
  1. Nunca devemos fazer algo que nos possa - mesmo que potencialmente – levar à prisão. Nunca.
  2. Pensamos nas prisões como locais cheios de psicopatas - como nos filmes - mas as prisões têm principalmente pessoas normais que, num momento das suas vidas, tomaram uma péssima decisão (ou várias!) e foram apanhadas.
  3. Na verdade, a maioria dos prisioneiros - algumas estatísticas dizem que são cerca de 85% - está atrás das grades, porque desenvolveu, nos seus primeiros anos, um vício de álcool ou outras drogas.
  4. Aqueles de nós que têm liberdade, tendem a tomá-la por garantida - até que a perdem.
  5. A prisão tira-nos a liberdade física - também pode tirar o espírito.
  6. Na prisão pode estar qualquer um de nós (Deus nos ajude!).

Quando eu dava aulas de Inglês, ia à prisão todas as quartas-feiras à noite, durante um semestre. No início, tinha algum receio - provavelmente qualquer pessoa teria - mas isso desapareceu rapidamente. Pouco depois, descobri que gostava dos prisioneiros a quem ensinava - eram animados, curiosos e queriam aprender; tornavam as minhas aulas realmente interessantes. Alguns ficavam sossegados, outros eram engraçados, e outros tinham enormes dotes intelectuais. Um sujeito - um adolescente afro-americano, que tinha abandonado a escola para vender crack - tinha um QI de nível génio e era uma das mentes mais brilhantes e mais rápidas que eu alguma vez encontrei. Claro que os prisioneiros a quem eu dava aulas tinham ganho o privilégio de assistir às aulas graças ao seu bom comportamento; assim, nenhum deles representava qualquer perigo para os outros ou para mim. Ali nunca me senti ameaçado ou inseguro.

Um dos meus alunos disse-me "Ó professor, quando você vier para a aula da próxima semana, não deixe o carro no parque de estacionamento. Em vez disso, estacione o seu carro junto ao muro da torre norte, e deixe as chaves na ignição!" Ri-me tanto da primeira vez que ele repetiu a piada todas as quartas-feiras. Talvez ele estivesse meio a brincar.

Ou talvez - apenas talvez - ele usasse o humor para destacar a diferença óbvia entre nós: eu podia sair e ele não podia.


No fundo, a minha experiência na prisão levou-me a um novo mundo que eu nunca tinha encontrado antes, e que poucas pessoas do lado de fora alguma vez encontram. Fez-me perceber, de forma limitada e como visitante, o que é estar preso. Deu-me uma noção melhor da minha própria liberdade. Em última análise, fez-me pensar muito sobre a justiça, e o que ela significa para um prisioneiro. Comecei a ler tudo que eu podia encontrar sobre a justiça penal e a sua reforma. Tudo isso levou-me aos ensinamentos Bahá'ís sobre a recompensa e punição; o certo e o errado; a justiça e a injustiça; e a maneira correcta da sociedade lidar com a lei e com aqueles que a violam. Nesta série de artigos sobre estes assuntos, vamos olhar para as questões, examinar as maneiras como as nossas sociedades actualmente lidam com o crime e castigo, e explorar as soluções de justiça criminal que os ensinamentos Bahá’ís oferecem à sociedade.

Vejamos, em primeiro lugar, o conceito global – a lei eterna de recompensa e punição.

Quando estava em Paris, em 1913, 'Abdu'l-Bahá deu uma palestra notável sobre estes dois assuntos:

Na condução da vida, o homem é accionado por dois motivos principais: "A Esperança de Recompensa" e "O Medo da Punição."

Esta esperança e este medo devem, consequentemente, ser levados em conta por quem tem autoridade em cargos importantes no Governo. A sua actividade na vida é consultar juntos sobre a elaboração de leis e permitir a sua justa aplicação

A tenda da ordem no mundo está erguida e estabelecida sobre os dois pilares da "recompensa e castigo".

Em governos despóticos conduzidos por homens sem fé divina, onde não existe medo de represálias espirituais, a aplicação das leis é tirânica e injusta.

Não há maior prevenção de opressão do que esses dois sentimentos: esperança e medo. Eles têm consequências políticas e espirituais.

Se os administradores da lei levassem em consideração as consequências espirituais das suas decisões e seguissem a orientação da religião, "Eles seriam agentes divinos no mundo da acção, os representantes de Deus para aqueles que estão na terra, e defenderiam, por amor a Deus, os interesses dos Seus servos como defendem os seus próprios". Se um governador percebe a sua responsabilidade e teme desafiar a lei divina, as suas sentenças serão justas. Acima de tudo, se ele acreditar que as consequências das suas acções vão acompanhá-lo para além da sua vida terrena e que "ele vai colher o que semear", esse homem certamente irá evitar a injustiça e a tirania.

Caso um funcionário, pelo contrário, pense que toda a responsabilidade pelas suas acções termina com a sua vida terrena, nada souber sobre os favores divinos, nem acreditar no reino espiritual da alegria, ele não terá incentivo para agir de forma justa, nem inspiração para destruir a opressão e a injustiça.

Quando um governante sabe que as suas sentenças serão avaliadas numa balança pelo Juiz Divino, e que se ele não estiver em falha ele entrará no Reino Celestial e que a luz da Dádiva Celeste vai brilhar sobre ele, então ele certamente agirá com justiça e equidade. Eis como é importante que os ministros do Estado sejam iluminados pela religião!

... a justiça não está limitada, é uma qualidade universal. A sua função deve ser executada em todas as classes, desde a mais alta à mais baixo. A justiça deve ser sagrada, e os direitos de todas as pessoas devem ser considerados. Desejar para os outros apenas o que desejamos para nós próprios. Em seguida, regozijar-nos-emos no Sol da Justiça, que brilha do horizonte de Deus.

Cada homem foi colocado numa posição de honra, que ele não deve abandonar. Um trabalhador humilde que comete uma injustiça é tão culpado como um tirano famoso. Assim, todos nós temos a nossa escolha entre justiça e injustiça.

Espero que cada um de vós seja justo, e direccione os seus pensamentos para a unidade da humanidade; que nunca prejudiquem os vossos vizinhos, nem falem mal de qualquer um; que respeitem os direitos de todos os homens, e estejam mais preocupados com os interesses dos outros do que com os vossos próprios. Assim, tornar-vos-eis tochas da Justiça Divina, agindo de acordo com os ensinamentos de Bahá'u'lláh, que, durante a Sua vida, suportou inúmeras provas e perseguições, a fim de manifestar ao mundo da humanidade as virtudes do Mundo da Divindade, tornando possível para vós perceber a supremacia do espírito e regozijar-vos na Justiça de Deus. (Paris Talks, pp 157-160)

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Texto original: 6 Things I Learned in Prison (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Sr. Rouhani: o que é que fez para proteger os direitos dos cidadãos Bahá’ís?


Por Reza Afshari.

Agora que o presidente Hassan Rouhani se prepara para falar na Assembleia Geral da ONU pela quarta vez – e a última antes da próxima eleição presidencial iraniana em 2017 – não posso deixar de notar que ele falhou tremendamente no cumprimento das suas promessas eleitorais de proteger os direitos humanos no Irão. Isto é particularmente verdade para a comunidade Bahá’í do Irão, a maior minoria religiosa do país, e alvo preferencial do regime.

Muitas vezes penso que apenas verei liberdade no meu país quando os meus compatriotas Bahá’ís forem livres. A história da comunidade do Bahá’í no Irão, em muitos aspectos, é a história da luta pelos direitos humanos no Irão. Desde a Revolução Islâmica de 1979, os Bahá’ís têm sido brutalmente reprimidos. O governo iraniano executou cerca de 200 Bahá’ís, prendeu milhares, negou-lhes emprego, impediu-os de entrar no ensino superior, profanou os seus cemitérios e arrasou os seus lugares sagrados. Os Bahá’ís são perseguidos desde que nascem até que morrem.

Seria fácil concluir que esta perseguição é apenas resultado do ódio cego dos clérigos, e que as suas principais raízes estão no preconceito religioso. Não há dúvida que se trata de um factor importante; mas a história é mais complexa. O povo iraniano também tem sido cúmplice na repressão. Apesar de qualquer Estado conseguir abusar dos seus cidadãos, os preconceitos dos iranianos comuns permitiram que os abusos contra os Bahá’ís não fossem controlados.

Antes da Revolução, quando os Bahá’ís gozavam de uma liberdade relativamente maior, eles ainda enfrentavam uma vasta discriminação e hostilidade social dos seus concidadãos, que organizavam massacres e violências contra eles. Durante muitos anos após a Revolução, quando a perseguição governamental se intensificou, os iranianos permaneceram calados. Ver os Bahá’ís como “os outros” era tão comum – devido ao facto de, durante décadas eles terem sido demonizados como espiões estrangeiros e membros de um culto perverso, primeiro pelos clérigos no tempo do Xá e depois pela propaganda de ódio do regime, e eram o bode expiatório para todos os tipos de problemas políticos e económicos – que nem os activistas de direitos humanos falavam dos Bahá’ís.

Felizmente, o vento começou a mudar. É claro que ainda há várias dezenas de Bahá’ís prisioneiros de consciência atrás das grades, incluindo os sete líderes da comunidade Bahá’í do Irão. Os Bahá’ís ainda são impedidos de ter emprego no sector público e alguns empregadores privados são pressionados para não os contratar; nos anos recentes, o governo também começou a encerrar várias empresas pertencentes a Bahá’ís, num esforço para garantir que a comunidade ficava empobrecida. Entretanto, nas escolas as crianças Bahá’ís são hostilizadas, os Bahá’ís são excluídos das universidades, e os cemitérios Bahá’ís são profanados. A condição dos Bahá’ís lembra-nos que, mesmo quando o Irão se abriu aos negócios após o acordo nuclear, a situação dos direitos humanos permaneceu inaceitável.

No entanto, as mudanças estão a acontecer. Os iranianos estão a “privatizar” o Islão, contornando os severos ayatollahs e preocupando-se cada vez mais com a justiça social. A implacável oposição do Estado à liberdade individual aumentou o apreço por essa liberdade. Em retrospectiva, a República Islâmica tem sido paradoxalmente catártica, eliminando a letargia cultural que entupia as vias políticas para a modernidade e desencadeando um debate sobre a aceitação da democracia e dos direitos humanos. Largos sectores do povo iraniano aprenderam muito nas últimas três décadas, e hoje muitas pessoas defendem corajosamente os direitos dos Bahá’ís e de outros grupos perseguidos. Reconhecem que os Bahá’ís iranianos passaram por um imenso sofrimento e orgulham-se da resistência e resiliência da comunidade Bahá’í.

Mas há um longo caminho a percorrer. As vozes dos Bahá’ís iranianos ressoam nos meus ouvidos há mais de três décadas e eu estou mais convencido do que nunca que o tratamento dos Bahá’ís iranianos é um indicador da aceitação social das normas de direitos humanos e da vontade do Estado em aplica-las. Quando os direitos dos Bahá’ís melhorarem, os direitos dos iranianos também irão melhorar. E agora que as empresas ocidentais exigem fazer negócios com o Irão e o presidente Rouhani se prepara para mais uma sessão retórica aos diplomatas em Nova Iorque, faríamos bem em recordar o povo iraniano, que continua a viver sob um regime que lhes nega os direitos humanos essenciais.

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FONTE: Mr. Rouhani: What Have you Done to Protect the Rights of Your Baha’i Citizens? (International Policy Digest)

sábado, 17 de setembro de 2016

A Igreja Medieval suprimiu a Ciência?

Por Maya Bohnhoff.


"O que tem Atenas a ver com Jerusalém?"
Esta questão - colocada de forma fabulosa por Tertuliano, um dos primeiros filósofos cristãos - constitui a base de um mito relacionado que abordei no meu texto anterior. Esse mito sustenta que a igreja medieval suprimiu activamente o desenvolvimento da ciência. John Draper fomentou a ideia em 1874, com a sua obra The History of Conflict Between Religion and Science, onde afirmou:
A Igreja . . . estabeleceu-se como depositária e árbitro do conhecimento. . . Assim, ela seguiu um rumo que determinou toda a sua futura carreira; ela tornou-se uma pedra no caminho do avanço intelectual da Europa durante mais de mil anos.
Carl Sagan deu credibilidade à ideia na série Cosmos (1980), onde apresentou um gráfico do progresso na astronomia. O gráfico inicia-se com o antigo pensamento grego até ao tempo de Hipácia, e em seguida, contém um intervalo de cerca de mil anos entre a dama da matemática e Copérnico e DaVinci. Na legenda do gráfico de Sagan, este enorme "fosso" criou "uma pungente oportunidade perdida para a humanidade."

Carl Sagan
Quando era adolescente, eu idolatrava Carl Sagan. E também aceitava o mito. Ainda tenho um enorme respeito pelo "tio" Carl e a sua desmistificação da ciência, mas reconheço que até os homens muito inteligentes podem estar mal-informados. Sagan e outros ignoraram completamente as contribuições para a filosofia natural feitas por luminares do Oriente Médio como Ibn-Rushd (Averróis), Ibn Sina (Avicena) e Ibn Firnas.

Mas ainda há mais! Uma pequena lista das realizações desta era supostamente das trevas na ciência europeia inclui: a obra de William of Saint-Cloud sobre eclipses solares; as descobertas de frade dominicano Dietrich von Freiberg sobre o arco-íris; a aplicação da teoria do ímpeto de Jean Buridan para explicar um projéctil de movimento, a aceleração em queda livre e a rotação do céu nocturno. O bispo Nicole d’Oresme desenvolveu argumentos, na sua juventude, em defesa da rotação da Terra, embora não houvesse então qualquer evidência empírica ou argumentos racionais conclusivos para a ideia. Entretanto, em Oxford, os filósofos naturais estavam a aplicar a matemática para o estudo do movimento.

Sabemos agora que havia ciência durante a Idade Média em lugares como Oxford, onde foi fundada uma universidade em 1096 EC (embora lenda a coloque em 872). Também foram fundadas universidades em Bolonha e Paris antes de 1200 CE. Por volta de 1500, havia cerca de 60 dessas instituições espalhadas por toda a Europa, com cerca de 30 por cento dos currículos dedicado ao estudo do mundo natural.

A organização que dava maior apoio a essas instituições foi... a Igreja Católica. O historiador John Heilbron (mais conhecido pelas suas histórias da física), escreveu:
A Igreja Católica Romana deu mais apoio financeiro e social para o estudo da astronomia durante seis séculos - desde a recuperação de dados antigos no final da Idade Média até ao Iluminismo - do que qualquer, e provavelmente todas, outras instituições. - The Sun in the Church, Harvard University Press, 1999.
Michael Shank - professor emérito de história da ciência na Universidade de Wisconsin, Madison - observa no livro em Galileo goes to jail que a descoberta do papel da Igreja no financiamento destas primeiras universidades, foi recebido com o argumento de que, é claro, os estudantes dessas escolas eram monges ou sacerdotes que estudam principalmente teologia. No entanto, de acordo com registos das escolas, este não foi o caso. A maioria dos alunos nem sequer fazia quaisquer estudos em teologia. Sim, havia clérigos em algumas universidades que estudavam teologia, mas isso exigia fazer os votos, por um lado, e um curso de Master of Arts por outro. De facto, algumas universidades nem sequer tinham uma faculdade teológica, portanto, apenas eram leccionados estudos "seculares".


Aula numa Universidade, séc. XIV
O facto facilmente esquecido é que, mesmo que se a maioria dos eruditos estivessem a estudar "a rainha das ciências" (teologia), juntamente com a astronomia, história natural e matemática por ordem da Igreja Católica, isso minaria qualquer noção de que a Igreja via filosofia natural como algo a ser evitado pelos Cristãos. Milhares de estudantes (o professor Shank cita um número de cerca de 250.000 só na Alemanha, a partir de 1350 EC) aprendiam o mais recente de conhecimento científico - fossem clérigos ou leigos. A Igreja não só permitiu isso, mas também o incentivou e financiou.

Mas houve casos em que os teólogos entraram em conflito com essas universidades? Certamente. Por alguma razão, isso aconteceu várias vezes entre a Universidade de Paris e o bispo local, que, a dado momento, entrou em controvérsia com o seu colega aristotélico, Tomás de Aquino. Na verdade, parece ter sido necessária uma bula papal (Parens scientiarum ou "Mãe da Ciências") para defender o currículo universitário contra o bispo de Paris.

Vendo as coisas de uma forma equilibrada, torna-se óbvio o perigo de atribuir as acções das autoridades locais à "Igreja" ou ao "Cristianismo". Isso permite a criação de mitos que fomentam o preconceito e a irracionalidade, e apresentam uma visão distorcida da relação histórica entre a ciência e a religião. Em geral, a Igreja - como uma instituição - não suprimi ciência, mas pelo contrário, promoveu-a.

Para resumir, se a Igreja Católica tivesse a intenção de suprimir as ciências, os seus métodos pareceriam particularmente bizarros. Esta promoção religiosa contraproducente de ideias científicas - se acreditarmos que a religião se opõe inerentemente à ciência - também foi seguida pelo Islão, e ainda mais acentuadamente continuada pela Fé Bahá'í. Maomé fez a famosa exortação aos seus seguidores para procurarem todos os tipos de conhecimento até aos confins da terra; a história atesta o resultado disto. Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá elevaram o estudo e a aplicação das ciências ao nível de adoração:
O conhecimento científico é a mais elevada realização no plano humano, pois a ciência é o descobridor das realidades. É de dois tipos: materiais e espirituais. A ciência material é a investigação dos fenómenos naturais; a ciência divina é a descoberta e realização de verdades espirituais. O mundo da humanidade deve adquirir ambas. Um pássaro tem duas asas; ele não pode voar apenas com uma. As ciências materiais e espirituais são as duas asas de elevação e realização humanas. Ambas são necessárias... ('Abdu'l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, p. 138)
'Abdu'l-Bahá fez esta declaração acima numa cidade famosa pelas suas instituições de ensino superior. Também falou na Universidade de Stanford na Califórnia e lá, como em muitos dos Seus discursos, falou sobre a importância da ciência e a sua harmonia essencial com a religião. Esta consideração profunda pela ciência no reino da religião é directamente responsável pelo facto de muitas pessoas de fé terem optado por procurar o conhecimento científico e terem feito importantes descobertas científicas. Não tenho dúvidas que continuarão a fazê-lo.

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Texto original: Did the Medieval Church Suppress Science? (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 10 de setembro de 2016

Combater o Culto do Corpo

Por David Langness.


O teu propósito na vida é encontrar o teu propósito e dar-lhe todo o teu coração e alma. (Gautama Buda)
Isto é uma verdadeira afirmação Zen - e não vem de um dos Seus discípulos, mas do próprio Buda. "O teu propósito na vida é encontrar o teu propósito..." Soa bastante paradoxal, não é?

No entanto, se pensarmos profundamente, esta parábola Zen faz sentido. Esforçamo-nos, durante toda a vida, a procurar e depois a realizar o que consideramos ser mais valioso. O Buda pede-nos que procuremos um propósito real, e assim que o encontrarmos, dar-lhe tudo o que temos.

O leitor já encontrou o seu propósito na vida?

Conhece o seu propósito - o seu objectivo, intenção, projecto, a sua esperança mais profunda. Tem uma direcção final, um desígnio, uma aspiração? Tal como um barco no oceano, você tem um destino?

Por outras palavras, qual é o sentido da sua vida?

Muitos de nós estamos tão envolvidos nas tarefas necessárias à vida e à sobrevivência que não pensamos muito profundamente no seu objectivo maior. Vamos para o trabalho ou para a escola, pagamos o aluguer ou a hipoteca, comemos, dormimos, tratamos das nossas famílias e tentamos manter a nossa saúde. A natureza implacável da vida - o seu ritmo quotidiano puro – faz-nos focar simplesmente em concluir esforços e ultrapassar obstáculos, tentando manter o nosso equilíbrio, e passar para a tarefa seguinte.

Assim, a maioria das pessoas, parece às vezes, passar a vida apenas a sobreviver, apenas a satisfazer os seus instintos e impulsos, apenas a satisfazer as necessidades do corpo físico:
Se um homem é bem-sucedido no seu negócio, arte ou profissão fica capacitado para aumentar o seu bem-estar físico e dar ao seu corpo a quantidade de comodidades e conforto com que se deleita. Hoje, à nossa volta, vemos como o homem se rodeia com todas as conveniências e luxos modernos, e nada nega ao lado físico e material da sua natureza. Mas, acautelai-vos, para que ao pensar demasiado nas coisas do corpo vos esqueceis das coisas da alma; pois os benefícios materiais não elevam o espírito de um homem. A perfeição em coisas mundanas é uma alegria para o corpo de um homem, mas isso de modo algum glorifica a sua alma.

Pode acontecer que a um homem que tenha todos os benefícios materiais e que viva rodeado por todos os grandes confortos que a civilização moderna lhe pode dar, lhe seja negado o dom importantíssimo do Espírito Santo.

Na verdade, progredir materialmente é uma coisa boa e louvável, mas ao fazê-lo, não vamos negligenciar o progresso espiritual que é mais importante, e fechar os olhos para a Luz Divina que brilha entre nós.

Apenas ao melhorar espiritualmente assim como materialmente podemos fazer algum progresso real, e tornarmo-nos seres perfeitos. Foi para trazer esta vida e luz espirituais ao mundo que todos os grandes Professores têm aparecido. Eles vieram para que o Sol da Verdade se pudesse manifestar e brilhar no coração dos homens, e que através do seu poder maravilhoso os homens pudessem alcançar a Luz Eterna. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 62)
"Acautelai-vos", aconselha 'Abdu'l-Bahá, "para que ao pensar demasiado nas coisas do corpo vos esqueceis das coisas da alma..." As nossas sociedades modernas parecem muito focadas em pensar demasiado seriamente nas coisas do corpo, não é? Para onde quer que vamos, vemos a idealização do físico. Em anúncios, em ecrãs de cinema, na internet, em revistas e até mesmo na publicidade em paragens de autocarro, somos continuamente bombardeados com imagens de perfeição física, como se isso fosse o único objectivo da vida. Os media gritam "Juventude! Beleza! Músculos esculturais! Cabelo esplendoroso! Pele brilhante! Abdominais rijos!"e nós compramos tudo isto.

Há uma expressão para descrever esta tendência: o culto do corpo. Os nossos corpos físicos exigem uma grande dose de atenção constante - comida, água, exercício, descanso, roupas, abrigo e cuidados de saúde - mas quando nós exageramos, e "pensamos demasiado" nas nossas necessidades físicas, perdemos as mais importantes e duradouras realidades da vida. Quando o culto do corpo aparece, torna-se uma obsessão, uma preocupação constante que se pode transformar numa obrigação quase religiosa. Em vez de cuidar da aparência geral do corpo físico, e de considerar a nossa saúde como uma forma de conservar os nossos corpos para que as nossas mentes e almas possam fazer coisas boas, algumas pessoas obcecadas da aptidão física vêem a perfeição física e material como o objectivo derradeiro da vida.

Quando isso acontece, temos o culto do corpo em acção.

É claro que nenhum esforço consistente que possamos fazer com o corpo - halterofilismo, muitas horas no ginásio, praticar um desporto ou correr centenas de quilómetros - trará dividendos físicos e mentais. O problema? Os dividendos não duram. Os nossos corpos têm datas de validade registadas no nosso ADN. A determinado momento, os nossos corpos envelhecem e ficam frágeis. Todos nós nos libertamos destas camadas físicas exteriores e passaremos para uma existência mais espiritual. Nunca houve alguém que conseguisse contornar esta dura lei da existência.

O conselho sábio de 'Abdu'l-Bahá para que nos esforcemos para sermos seres perfeitos "melhorando tanto espiritual como materialmente" aplica-se aqui. Ao criar um equilíbrio saudável, inteligente entre nossas necessidades físicas e espirituais, podemos realmente progredir e dar o primeiro passo para encontrar o nosso maior objectivo na vida.

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Texto original: Combatting the Cult of the Body (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Bahá’ís pedem ao Presidente Rouhani o fim da repressão económica

Hasan Rouhani e Bani Dugal
A Comunidade Internacional Bahá’í endereçou um apelo oficial ao Presidente iraniano Hassan Rouhani para que ponha termo à repressão económica dos Bahá’ís daquele país.

O apelo foi feito numa carta dirigida ao Presidente Rouhani onde se mostra que desde a Revolução Islâmica de 1979, os Bahá’ís do Irão têm sido alvo de muitos actos de perseguição; entre estes actos está uma campanha persistente de estrangulamento económico, que continua até aos dias de hoje e não mostra sinais de abrandamento.

A carta assinada por Bani Dugal – a representante principal da Comunidade Internacional Bahá’í nas Nações Unidas – chama a atenção para a profunda contradição entre as declarações do governo iraniano sobre justiça económica, igualdade para todos e redução do desemprego e os esforços continuados para empobrecer um grupo dos seus cidadãos.

A carta destaca que esta campanha assumiu a forma de uma política deliberada contra os Bahá’ís: expulsão de funcionários públicos; limitações profundas no sector privado; interdição de várias profissões e actividades profissionais com a justificação de serem religiosamente “impuros”; confiscação de bens; e encerramento de empresas e lojas. Até o nível elevado dos montantes de exigidos como caução aos Bahá’ís que são detidos tem um efeito económico terrível na comunidade.

Além disto, a missiva também identifica o impacto económico da opressão de jovens Bahá’ís, estudantes, atletas e artistas. “As consequências económicas resultantes da negação de oportunidades aos jovens Bahá’ís para desenvolver os seus talentos são consideravelmente mais graves do que muitas outras formas de opressão”, afirma-se na carta.

Descrevendo esta discriminação sistemática como “apartheid económico”, a carta coloca questões pertinentes: “Como pode uma política de um governo empobrecer deliberadamente um sector da sua sociedade? Como é que os responsáveis pelas consequências financeiras sociais e psicológicas destas discriminações justificam os seus actos? Que valores civis ou religiosos permitem a exclusão premeditada de uma população da participação na vida económica do seu próprio país? Como se pode continuar a falar de construir uma sociedade justa e em progresso no meio desta injustiça sistemática?

A carta conclui apelando ao Presidente Rouhani que reveja urgentemente a situação dos Bahá’ís e corrija a situação.

Ler a carta em inglês aqui.
Ler a carta em persa aqui.

Recentemente, um documentário produzido por algumas pessoas no Irão onde é apresentado um vislumbre do tremendo sofrimento económico dos Bahá’ís no Irão atraiu a atenção da comunicação Social. A Amnistia Internacional apresentou o documentário na sua página do Facebook.

Um relatório especial sobre a opressão económica dos Bahá’ís no Irão publicado em 2015 pode ser consultado aqui.

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FONTE: BIC calls on President Rouhani to end systematic economic oppression (BWNS)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O Sr. Lohrasb


Poderia ser apenas mais um dos muitos Bahá’ís que é hostilizado no Irão. Mas este é um nome que já referi algumas vezes neste blog (aqui e aqui). Trata-se do Sr. Iraj Lohrasb, residente na cidade de Yazd.

E o seu nome voltou a ser notícia porque foi libertado da prisão.

O sr. Lohrasb tinha sido detido em 30 de Junho de 2014 e condenado em Novembro desse ano, por ter colocado no Facebook fotografias do Cemitério Bahá’í de Yazd após acto de vandalismo. Cumpriu uma pena de dois anos de prisão, sem que nunca lhe tivesse sido concedida qualquer ausência temporária.

O Sr. Lohrasb já tinha sido preso em 1983, tendo cumprido uma pena de vários meses e depois sido exilado. Juntamente com outros Baha’is, para Zabol, perto da fronteira com o Afeganistão. Só passados 6 anos é que lhe permitiram regressar a casa.

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FONTE: Mr. Iraj Lohrasb released from prison (Sen’s daily)

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Porque é que os Bahá’ís não se envolvem na política?

Por David Langness.

Não disputes com ninguém sobre as coisas deste mundo e seus assuntos, pois Deus abandonou-os àqueles que colocaram os seus afectos sobre isso. De entre todo o mundo, Ele escolheu para Si próprio os corações dos homens – corações que as hostes da revelação e da palavra podem subjugar. (Bahá’u’lláh, SEB CXXVIII)

...os interesses religiosos não devem ser levados para a política. As religiões devem tratar da moral; a política das circunstâncias materiais. ('Abdu'l-Bahá, Star of the West, Vol.2, pag.7)
Os objectivos derradeiros da Fé Bahá’í - reconciliar, unificar, curar as divisões e conseguir o amor e o respeito mútuo entre todos os seres humanos - não se podem alcançar através da política.

A política é, por natureza, inerentemente divisiva, e funciona através da oposição entre grupos. A política partidária separa, divide e isola. Em vez de unir as pessoas, força o seu afastamento, criando facções que se opõem, exigindo-lhe que desprezem e desvalorizem o outro lado e que lutem entre si. A política cria e alimenta uma mentalidade tipo “nós contra eles”. Noutro sentido, a política partidária actual lembra muito a guerra, sem a violência patente. É conhecida a frase de Von Clausewitz: “A guerra é apenas a continuação da política por outros meios".

Os ensinamentos Bahá’ís concordam, salientando que a guerra constitui a antiga base do nosso sistema politico partidário; e que o devemos substituir por uma política moderna baseada na paz:
Desejo que esta bênção surja e se torne manifesta nas faces e características dos crentes, para que eles, também, se tornem um novo povo, e encontrem uma nova vida e sejam baptizados pelo fogo e pelo espírito, e possam fazer do mundo um novo mundo, e que por fim a velha terra possa desaparecer e a nova terra aparecer; que as velhas ideias se afastem e novos pensamentos apareçam; que as velhas roupas sejam postas de lado e novas roupas sejam usadas; que a antiga política cuja base é a guerra seja rejeitada e uma política moderna baseada na paz erga o estandarte da vitória; que uma nova estrela brilhe e cintile e um novo sol ilumine e irradie; que as novas flores desabrochem; que uma nova primavera seja conhecida; que sopre uma nova brisa; que uma nova graça seja concedida; que a nova árvore dê frutos; que uma nova voz se erga e este novo som chegue aos ouvidos, que o novo suceda ao novo e todos os antigos adereços e adornos sejam postos de lado e novas decorações colocadas no seu lugar.

Desejo que todos vós tenhais esta grande ajuda e partilhem esta grandiosa dádiva, e que no espírito e no coração se esforcem e empenhem até que o mundo da guerra seja o mundo da paz; o mundo das trevas o mundo da luz; o comportamento satânico transformado em conduta celestial; os locais arruinados reconstruídos; a espada transformada num ramo de oliveira; o relâmpago do ódio transformado na chama do Amor de Deus e o ruído da arma na voz do Reino; os soldados da morte nos soldados da vida; todas as nações do mundo numa única nação; todas as raças como uma raça; e todos os hinos nacionais numa única melodia ('Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 2, p. 1)
Então como conseguiremos alcançar essa bela visão de unidade e paz que os ensinamentos Bahá’ís apresentam? Podemos lá chegar com os velhos sistemas de política partidária – ou precisamos de uma nova política global, mais evoluída, que unifique em vez de dividir?

Os ensinamentos Bahá’ís prepararam um novo caminho para esses objectivos sublimes. Os Bahá’ís tentam trabalhar a de uma forma mais profunda e permanente do que os políticos alguma vez conseguirão. Os ensinamentos Bahá’ís pedem-nos que evitemos a política partidária para curar (e não alargar!) as divisões entre pessoas e partidos. Para unir a humanidade temos de ultrapassar o estilo de política bélica que se usa na nossa sociedade civil, e encontrar formas de curar a verdadeira doença em vez de colocar curativos temporários nos sintomas:
A doença que aflige o corpo político é a falta de amor e ausência de altruísmo. Nos corações dos homens não se encontra amor real, e a condição é tal que, a menos que as suas sensibilidades sejam vivificadas por algum poder, para que a unidade, amor e harmonia se possam desenvolver dentro deles, não poderá haver cura, nenhum acordo entre a humanidade. O amor e a unidade são as necessidades do corpo político de hoje. Sem estes, não se pode alcançar progresso ou prosperidade. Portanto, os amigos de Deus devem aderir ao poder que irá criar esse amor e unidade no coração dos filhos dos homens... Esta é uma exigência dos tempos, e o remédio divino foi ministrado. Os ensinamentos espirituais da religião de Deus podem, só por si, criar este amor, unidade e harmonia nos corações humanos. ('Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 10, pp. 115-116)
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Texto original: Why Baha’is Don’t Participate in Politics (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Empresário Bahá'í e filha detidos em Shiraz, Irão


No passado sábado, 27 de Agosto de 2016 vários agentes policiais fizeram uma rusga à residência do Sr. Nematollah Bangaleh, tendo ele e a sua filha sido detidos. Vários bens no interior da residência foram destruídos no decorrer da operação. Foram apreendidos computadores, telefones, livros e imagens sagradas.

O Sr. Bangaleh é um empresário que há alguns meses atrás viu várias mercadorias retidas na alfândega durante muito tempo. Esta não é a primeira vez que os Bahá'ís economicamente bem-sucedidos vêem as suas empresas e residências serem alvo de ataques.

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FONTE: Baha’i Businessman Arrested with His Daughter in Shiraz, Iran (Iran Press Watch)

sábado, 27 de agosto de 2016

A Ascensão do Cristianismo e a Ruína da Ciência

Por Maya Bohnhoff.


Um dos mitos mais comuns sobre ciência e religião é que o crescimento da fé - ou da ortodoxia - provocou a ruína das ciências nascentes.

Um modelo usado para sustentar esta ideia é o confronto clássico entre Galileu e a Igreja Católica. Outro é o martírio da matemática egípcia, Hipátia, no século V. Segundo a lenda, Hipátia foi arrastada da sua carruagem e morta numa igreja de Alexandria, por uma multidão de cristãos fanáticos. Havia um panfleto escrito sobre ela em 1720 por um tal John Toland com este título impressionante (respire fundo antes de ler): A História de uma Mulher Belíssima; que foi despedaçada pelo clero de Alexandria para satisfazer o orgulho, a rivalidade, e a crueldade do Arcebispo, comummente, mas imerecidamente, intitulado São Cirilo.

Esta história foi apresentada durante séculos como um exemplo do que acontece quando a ciência iluminada entra em conflito com qualquer forma de crença religiosa. Mas será uma história fidedigna? Segundo uma biografia recente de Hipátia, escrita por Maria Dzielska, a resposta é não. Dzielska revela que Hipátia estava envolvida numa luta política local com o referido Cirilo de duvidosa santidade - que Dzielska descreve como "um clérigo ambicioso e implacável, desejando alargar a sua autoridade" - e Orestes, o Perfeito Imperial Romano da região, e também um amigo Hipátia.

O martírio de Hipátia, em Alexandria
Orestes, tal como Cirilo, era cristão. Mas Cirilo não gostava de Orestes porque o Prefeito desafiou a sua própria autoridade e ambições. Cirilo invocou a amizade de Orestes com a pagã Hipácia para denegrir a sua reputação. Para apimentar a história, Cirilo acusou a mulher de feitiçaria.

Orestes era o verdadeiro alvo de Cirilo, e não Hipátia. Era um alvo por razões políticas, e não religiosas ou científicas. Cirilo nunca perseguiu os filósofos naturais como classe, embora tenha atacado violentamente os pagãos. Apesar das suas acções, as ciências e a matemática floresceram em Alexandria nas décadas seguintes. Os registos históricos não confirmam a alegação de que a ascensão do Cristianismo como religião foi o toque de finados do desenvolvimento científico.

O falecido historiador da ciência David C. Lindberg apresentou a ideia de que os relatos enganadores encontrados em obras como The Closing of the Western Mind de Charles Freeman são "tentativas de manter vivo um mito antigo: a imagem do cristianismo primitivo como um refúgio de anti- intelectualismo, uma fonte de sentimento anticientífico", e a causa do que se tornou conhecido como Idade das Trevas na Europa.

Então, de onde vem o mito?

Lindberg olha para as declarações de Tertuliano e outros filósofos religiosos que eram expressão de um certo desdém para com "Atenas" (sinónimo de erudição pagã). Taciano, um estudioso da Mesopotâmia do século II e contemporâneo de Tertuliano, perguntou:
Que coisas nobres produziste na tua busca pela filosofia? Qual dos teus homens mais eminentes se libertaram da vanglória?... Portanto, não te deixes levar pelas assembleias solenes de filósofos que não são filósofos, que dogmatizam as fantasias rudes do momento. (Galileo Goes to Jail, p. 11)
Aqui, Taciano foca-se nos "frutos" da filosofia, naquilo que ela realmente produz. Bahá'u'lláh expressou um sentimento semelhante:
Conhecimento é semelhante a asas para o ser (do homem) e como uma escada para subir. Compete a todos adquirir conhecimento, mas daquelas ciências que podem beneficiar o povo da terra, e não aquelas ciências que são meras palavras e terminam em meras palavras. (Baha’i World Faith, p. 189)
Mas, em seguida, acrescenta o seguinte:
Os possuidores de ciências e artes têm uma grande prerrogativa entre os povos do mundo. Na verdade, o verdadeiro tesouro do homem é o seu conhecimento. O conhecimento é o instrumento da honra, prosperidade, alegria, alegria, felicidade e exaltação. (Idem).
O contexto é fundamental. Tertuliano e Taciano não denegriram o conhecimento, mas antes o dogmatismo construído sobre "fantasias rudes" e tendências intelectuais. A sua atitude para com o dogmatismo filosófico deve ser considerada no contexto do facto de que eles e os seus colegas utilizarem os métodos da filosofia grega nas suas próprias áreas de estudo e pensamento. Eles alinharam as suas ideias com aqueles parceiros agradáveis como as escolas filosóficas do platonismo ou neoplatonismo, estoicismo, aristotelismo e neopitagorismo.

Lindberg coloca uma questão fascinante e simultaneamente crítica: "O que é que essas tradições religiosas e filosóficas têm a ver com a ciência?"

Naquele momento da história, a "ciência" não existia como uma disciplina, e seu progenitor - a chamada filosofia natural - não se distinguia da religião ou filosofia em geral. Havia, é claro, crenças sobre a natureza, medicina, bem-estar, doença, fenómenos naturais e a vida em geral. Essas coisas eram estudadas e escrevia-se sobre elas, muitas vezes com ênfase na sua relação com Deus ou deuses. A ideia de que pessoas religiosas desse tempo fossem foram patetas que não pensavam em nada senão as páginas da Bíblia (se é que possuíam esse documento), é uma caricatura, na melhor das hipóteses. O estudo do mundo natural foi um ramo do saber para pensadores cristãos e pensadores não-cristãos. Passariam séculos antes que essas áreas do saber fossem assinaladas com rótulos onde se lia "Ciência" e "Religião".

Na verdade, o que os filósofos cristãos discutiam era o propósito do conhecimento e a atitude apropriada para com o que se poderia retirar da realidade física. No decurso deste debate, eles revelaram uma profunda compreensão e domínio das metodologias utilizadas também nas filosofias a que se opunham. De facto, eles não se opunham à filosofia natural, mas a certos princípios filosóficos que concluíram - racionalmente - serem irrelevantes, infrutíferos, ou mesmo enganadores. Considerando a ênfase de Cristo na vida frutífera do cristão, isto não é surpreendente.

Longe de denegrir o conhecimento, os primeiros pensadores cristãos promoveram os benefícios de uma congregação bem informada. Foi neste contexto que Agostinho lamentou a ignorância de alguns dos seus companheiros cristãos:
Mesmo um não-cristão sabe alguma coisa sobre a terra, os céus, e os outros elementos... sobre o movimento e órbita das estrelas... e assim por diante, e é esse conhecimento ele defende, como sendo correcto segundo a razão e a experiência. Agora é uma coisa vergonhosa e perigosa para um infiel [um não-cristão] ouvir um cristão... a dizer disparates sobre esses assuntos; e devemos tomar todas as medidas para evitar uma situação tão embaraçosa, em que as pessoas vêem uma vasta ignorância num Cristão e riem-se em desprezo.
Agostinho e os seus companheiros aplicaram metodologias filosóficas greco-romanas aos fenómenos naturais e à interpretação bíblica. Não surpreende, portanto, que algumas das maiores conquistas e descobertas científicas que sustentam a ciência ocidental tenham sido feitas por estudiosos da religião, ou que o principal agente a incentivar esta descoberta e conquista tenha sido a igreja Cristã.

Além das multidões de fanáticos de ambos os "lados" (cristãos e não-cristãos citaram Tertuliano para defender os seus pontos de vista) a diferença entre as ideologias "científica" e "religiosa" estava em grande parte na atitude. Os filósofos naturais Cristãos defendiam o conhecimento aplicado - um conhecimento que não era um fim em si mesmo, mas sim uma ferramenta para ser usada na compreensão do propósito da existência humana.

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Texto original: The Rise of Christianity and the Demise of Science (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.